Paralisação ou paralisia

Professores do Estado de São Paulo aproveitam a sensibilidade do ano de eleição para promoverem greves de funcionários da rede pública de ensino por melhores salários.

Na teoria todos temos direito a greve mas na prática o Governo Serra cria medidas capazes de “penalizar” professores em estágio probatório, contratados por período limitado, OFAs, temporários e substitutos. Sem falar nas ameaças ao bônus e outras gratificações que estrelam publicidades eleitoreiras na TV enquanto funcionam bem para colocar professores em coleiras ou cabrestos.


A greve é uma arma importante mas precisa ser usada com inteligência, estratégia, planejamento, divulgação e manifestação. Caso contrário só servirá para jogar a população contra nós professores e não contra o governo, pois quando paramos o governo sabe o motivo. Já a população, que em sua maioria não se importa com a qualidade da educação mas sim com a capacidade que a escola tem em manter seus filhos ocupados para que possam trabalhar sem o aborrecimento de crianças em casa, encaram os grevistas como vagabundos por desconhecerem as condições humilhantes de trabalho ao qual o professor é exposto diariamente.

Para que o tiro não saia pela culatra…

Precisamos seguir o exemplo de classes trabalhadoras vencedoras no Brasil que conseguiram tantas conquistas que já não é absurdo ver sindicalistas da CUT ponderando exigências uma vez que elas chegaram a provocar aumento nas taxas de desemprego pela perda de interesse em uma contratação dispendiosa pelo setor privado. Como exemplo podemos citar as empregadas domésticas, onde algumas preferem abrir mão de direitos garantidos por lei para conseguir um emprego, pois tal prestação de serviço antes comum a classe média brasileira, hoje se limita àqueles que podem pagar por todos os benefícios que antes não existiam. Absurdo sim é já ter professor sentindo falta do período militar por conta da pior administração no Estado de São Paulo cuja ironia (trágica) é governada por um professor.


E o papel do sindicato?

Que sindicato? Eu poderia deixar esta resposta assim mesmo que não seria um exagero mas o pomposo e retrógrado sindicado dos professores de São Paulo não tem posição firme ou estratégia clara para conseguir junto ao governo saciar as necessidades da classe trabalhadora que detém o mais baixo salário dentre os profissionais públicos que ocupam cargo onde se exige curso superior e concurso público (infelizmente não todos). Apesar da alta arrecadação que o sindicato consegue junto aos professores, quase nada é aplicado na divulgação das injustiças contra estes trabalhadores, me fazendo lembrar a aristocracia francesa do século XVIII, posteriormente clientela da guilhotina (o que ainda me dá alguma esperança de conseguirmos um sindicato de verdade).


“Solte o grito de greve”

Na minha escola não ouvi nenhum grito, só professores pegando suas coisas e indo embora. Não foi assim que outras classes trabalhadoras conseguiram suas conquistas. Greve é uma arma que exige destreza e não podemos usá-la como quem tira um dia para cuidar da sua vida pessoal mas sim ir as ruas e à mídia se fazer ouvir. Os resultados do movimento virão com a qualidade das ações e não apenas com os números de quem aderiu a paralisação, portanto pressionar, discriminar ou fazer piquete nas escolas para impedir os colegas que não querem aderir a greve evidencia a desunião dessa classe trabalhadora que não costuma ouvir e se organizar mas agir por impulso.

Educadores não podem conseguir respeito negando-se a preparar suas aulas, abusando de faltas e licenças, torcendo o nariz para atualizarem suas formações ou apelando às brechas da justiça para anularem seus péssimos desempenhos em avaliações como muitos fazem. O reconhecimento só virá com muita luta e empenho em seu cotidiano, com respeito mútuo e dedicação a causa da qualidade de ensino onde o principal inimigo é o governo em sua busca sem escrúpulos por votos. Ser ativista não significa simplismente cruzar os braços.

O governo é o vírus causador da doença e uma grande parcela de professores que acreditam estar fazendo o possível para melhorar suas condições de trabalho, acabam abandonados pelo próprio sindicato e agindo como um sistema imunológico incapaz de sobreviver ao sistema e mantendo o coma que se agrava a cada década.

Os dizeres “Vem vamos embora que esperar não é saber” já parecem claros a todos

Resta à maioria compreender que “Quem sabe faz a hora não espera acontecer” pois ser ativista não significa simplismente cruzar os braços.


6 Comentários

  1. Ah, ninguém comentou ainda…vc precisa se organizar melhor para se ouvido…bom, eu li seu comentário tá?

    • “se” precisa expor melhor o que pensas porque ainda tenho minhas dúvidas se trata de um elogio ou crítica;
      “se” está enganado se pensas que não sou ouvido pois, este blog já conta com a visita de quase 30 mil pessoas sem nunca disvirtuar o assunto educação para assuntos apelativos que ganham audiência fácil na net nem custos com publicidade;
      “se” é um espécime raro porque um educador em condição de ser grevista não esconde a cara e certamente vai precisar apresentar ao menos um nome caso queira organizar-se
      enfim, “se” será sempre bem vindo(a) para deixar seus comentários aqui sem sofrer censura
      abraço

  2. Olha, gostei muito da sua postura. Vc argumenta bem e tem base no que fala… confesso que não concordei com um parágrafo, pois entendi que ele é uma contradição ao texto inteiro, aquele que fala sobre o professor parar de faltar e arrumar desculpas… eu sei que tem gente assim, mas vc deveria ter colocado como falando de uma minoria e lendo, ao grosso modo, deu a entender que são a maioria… só isso mesmo. O resto foi perfeito, argumentação, posição firme e idéias claras! Gostei do que li e apoio, com essa pequena ressalva). Obrigado pela oportunidade de ler algo tão bom! E não se preocupe com quantidade, pois as pessoas chegam aos poucos, assim como cheguei aqui, outros virão… e ficarão aqueles que se interessam em debater, argumentar e fazer a diferença!

    • Rodrigo, acho que houve um mal entendido pois, no texto eu digo que “educadores não podem agir assim”, logo, quis dizer que não são educadores mas todos os outros que levam a profissão a sério não receberão essas críticas de ninguém.

      Ainda assim fiz um ajuste no texto para evitar qualquer má interpretação, pois abomino qualquer tipo de generalizações, especialmente neste caso. Obrigado por notar e me alertar.

      Espero contar sempre com seus comentários e grato pela visita.

      Abraço

  3. A classe dos educadores, como um todo, tem plena consciência da importância e necessidade da greve, mesmo porque é a uma das poucas ferramentas que temos ao nosso dispor para conseguirmos as melhorias que viabilizem uma plena condição de trabalho com nossos educandos. Talvez uma das razões pelas quais vejo muitos professores não se engajando nesta greve, seja a perda da crença no sindicato. As propostas são ruins, os argumentos são frágeis… o sindicato está munindo o governo e jogando a população contra a nossa classe. Isso é evidente. Mas o professor critico vive um paradoxo hoje, pois por outro lado vemos o desrespeito do governo conosco em nosso cotidianos. É por isso que as manifestações(paralisações) estão funcionando mais do que a própria greve: nem 70 mil como disse a apeoesp mas muito menos 8mil como disse a pm. Estive lá, vi, 50 mil pessoas estiveram na Paulista com certeza. O professor tem que subjugar o sindicato e tomar as redeas da greve em suas maos, pois o que queremos é salario sim, mas antes disso, condiçoes de trabalho, formação continua. Precisamos de tempo, pois um bom profissional, precisa de tanto tempo de preparação e formação quanto de aulas propriamente com o aluno. è por isso que professores universitarios tem boa eficiencia. Também por isso, tantos professores não conseguiram atingir nota minima nas provas. O professor que reprovou, antes de tudo, é vítima de um sistema sucateado, onde ele tem um unico objetivo: segurar 50 alunos dentro de uma sala por um periodo de tempo, evitando que se matem. Uma vergonha! O governo tem o dever de cobrar de nós, a sociedade também… mas desde que antes atendam nossas necessidades básicas de existencia enquanto educadores: respeito, condiçoes de trabalho( tempo de estudo remunerado, formação e capacitação e não esses cursos on line vagos- ) e um salario digno que, alem de dar estabilidade ao bom profissional, que também atraia bons e novos profissionais, pois muita gente boa esta saindo da educação por conta disso….

    • Isso aí Davi,

      Hoje em dia não podemos esperar que a população ou menos ainda o governo, se sensibilize com o número de professores parados. Número não supera a qualidade prática de uma manifestação.
      Até a paralisação de coletores de lixo é mais sentida pela sociedade que a paralisação de professores. Antes de uma greve surda e muda, precisamos re adiquirir o respeito e a importância da educação. Para então sermos vistos como mestres.


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